sexta-feira, março 12, 2004

Pra tentar amenizar a minha ausência criativa, vou por um texto que recebi por e-mail. Sim, textos de e-mail são coisas do demônio, mas este até que é interessante... prometo que o próximo post vai ser melhor.


Mau Humor
Não me lembro direito, mas li numa revista, acho que na Carta
Capital, um artigo levantando a hipótese de que todo o cara que tem mania
de fazer aspas com os dedinhos quando faz uma ironia é um chato. Num outro
artigo alguém escreveu que achava que jamais tinha conhecido um restaurante
de boa comida com garçons vestidos de coletinho vermelho. Joaquim Ferreira
dos Santos, em "O Globo" de domingo, fala do seu profundo preconceito com
quem usa a expressão "agregar valor".
Eu posso jurar que toda mulher que anda permanentemente com uma
garrafinha de água e fica mamando de segundo em segundo é uma chata. São
preconceitos, eu sei. Mas cada vez mais a vida está confirmando estas
conclusões.
Um outro amigo meu jura que um dos maiores indícios de babaquice é
usar o paletó nos ombros, sem os braços nas mangas. Por incrível que
pareça, não consegui desmentir. Pode ser coincidência, mas até agora todo
cara que eu me lembro de ter visto usando o paletó colocado sobre os ombros
é muito babaca.
Já que estamos nessa onda, me responda uma coisa: você conhece algum
natureba radical que tenha conversa agradável? O sujeito ou sujeita que
adora uma granola, só come coisas orgânicas, faz cara de nojo à simples
menção da palavra "carne", fica falando o tempo todo em vida saudável é seu
ideal como companhia numa madrugada? Sei lá, não sei. Não consigo me
lembrar de ninguém assim que tenha me despertado muita paixão.
Eu ando detestando certos vícios de linguagem, do tipo "chegar
junto", "superar limites", essas bobagens que lembram papo de concorrente a
big brother. Mais uma vez repito: acho puro preconceito, idiossincrasia,
mas essa rotulagem imediata é uma mania que a gente vai adquirindo pela
vida e que pode explicar algumas antipatias gratuitas.
Tem gente que a gente não gosta logo de saída, sem saber direito por
quê. Vai ver que transmite algum sintoma de chatice. Tom de voz de operador
de telemarketing lendo o script na tela do computador e repetindo a cada
cinco palavras a expressão "senhoooorrr" me irrita profundamente.
Se algum dia eu matar alguém, existe imensa possibilidade de ser um
flanelinha. Não posso ver um deles que o sangue sobe à cabeça. Deus que me
perdoe, me livre e me guarde, mas tenho raiva menor do assaltante do que do
cara que fica na frente do meu carro fazendo gestos desesperados tentando
me ajudar em alguma manobra, como se tivesse comprado a rua e tivesse todo
o direito de me cobrar pela vaga.
Sei que estou ficando velho e ranzinza, mas o que se há de fazer? Não
suporto especialista em motivação de pessoal que obrigue as pessoas a
pagarem o mico de ficar segurando na mão do vizinho, com os olhos fechados
e tentando receber "energia positiva".
Aliás, tenho convicção de que empresa que paga bons salários e tem
uma boa e honesta política de pessoal não precisa contratar palestras de
motivação para seus empregados. Eles se motivam com a grana no fim do mês e
com a satisfação de trabalhar numa boa empresa.
Que me perdoem todos os palestrantes que estão ficando ricos
percorrendo o país, mas eu acho que esse negócio de trocar fluidos me
lembra putaria. E para terminar: existe qualquer esperança de encontrar
vida inteligente numa criatura que se despede mandando "um beijo no
coração"?

Lula Vieira (publicitário)

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