A vida está me reservando um grande propósito. Tenho uma missão, só o que acontece é que ainda não me disseram o que fazer. Vou descobrir a cura do câncer, resolver o problema da guerra no Oriente Médio ou, no mínimo, eliminar a fome na África. Talvez eu esteja sendo pretensioso, mas tenho meus motivos para crer que não estou aqui à toa. Não sou "mais um", aquele que nasce, cresce, vive 40 anos trabalhando por um salário meia-boca, e morre. Eu vim pra fazer uma diferença.
Mal de primogênito: "nossa, ele é tão inteligente!". Eu sofri muito disso até eu me tocar que, pelo menos na escola, eu era apenas "mais um". Me achava realmente inteligente. Também, todos aqueles adultos me elogiando, como eu ia saber que eu não era tudo isso? Pegando meus boletins de escola hoje, eu vejo que eu era mediano... 7, 8.5, um ou outro 9.... mas não tinha nada de espetacular, como os quádruplos 10 dos meus irmãos, que tinham por menor nota um ou outro 8.5. Esses sim, mereceriam ser chamados de gênios.
Já que na escola eu era realmente apenas "mais um", talvez eu fosse explorar os caminhos das artes. Não fui muito adiante com música, e de artes plásticas sempre gostei, mas não segui uma constância. Eu era sempre um artista preso numa mente lógica, matemática, e nunca pude me exprimir direito.
Como na arte também me mostrei irrelevante, olhei para as outras possibilidades... esportes? fala sério! Social, político? Nem que minha vida dependesse disso eu conseguiria algo. Então chegou a faculdade.
Vestibular, passei na USP. "Oh!" todos diziam. Eu me sentia inteligente de novo. Afinal de contas, entrei na Ciência da Computação na USP, a melhor universidade do país, etc etc etc. Com receio de retomar meu status de "não tão inteligente assim" caso eu não passasse na UniCamp, não fiz a segunda fase, mantendo assim os holofotes na folha de jornal com meu nome no cantinho.
Na Universidade, encontrei pessoas infinitamente mais inteligentes que eu, mais capazes, com áreas de habilidade bem definidas. E eu, o que sabia? Nada. Sabia dar Next-Next-Finish pra instalar o DOS, sabia zipar e deszipar, rodar scandisk e defrag, e mexer em programas Basic, sempre na tentativa e erro. Besteira, nada especial. E eu olhava à minha volta e via pessoas que tinham algo a mais. No entanto, tinha também uma boa parcela de gente que estava ali como eu, por sorte, sem ter estudado para as provas, sem ter lido os livros, nada. Na minha visão, passamos no vestibular por nossa capacidade intrínseca, e não por estudo, esforço. Minha missão se perdeu. Eu nunca soube o que estava fazendo ali. Estudando? Não creio. Estudei pouco, aprendi muito, mas não o suficiente para me manter na vida acadêmica.
Mas não foi um tempo perdido. Fiz amigos. Grandes amigos, que como na canção, guardo dentro do peito.
Saí da faculdade, rodei um pouco pela vida. Fui de cidade em cidade buscando meu pássaro azul, meu objetivo de vida, e nada encontrei. Parei nesta Curitiba cinzenta, fria e dura como minha esperança de ver alguma razão
no que ocorre.
Agora fico olhando, atento, a vida que passa, em busca de um sinal, uma indicação qualquer de que vou fazer algo grandioso. Não é megalomania nem vaidade, é uma questão de propósito.
Vale a pena viver? Não sei. Olhando imparcialmente, acho que não. Estou falando sério! Esvazie sua mente de toda a lavagem cerebral de que a vida é bela, que é pecado falar assim, toda essa baboseira, e adote uma visão crítica da coisa. Seja científico uma vez na vida. Se viver fosse uma oportunidade de investimento, você aplicaria nisso? Pegue pela média, um indivíduo normal, sem sal, sem nada de especial, que tem um ciclo de vida médio e uma vida ali, no meio de todo mundo. Alguém que seja realmente apenas "mais um". Agora meça os riscos, as desvantagens, o sofrimento, os problemas todos, e compare com as conquistas, com as alegrias, as boas surpresas, tudo isso. Antes de me dar uma resposta, lembre-se de que você não sente falta do que não conhece, não experimenta ou nunca ouviu falar. Por que você tem tanta vontade de comer o pudim de leite (ou bolo, ou pamonha, whatever) da sua avó/mãe/tia, mas nunca te dá água na boca de lembrar da Ambrosia que se comia no Olimpo? Ora, Ambrosia era a comida dos Deuses, com certeza era melhor que qualquer comida humana. Do mesmo modo, se você nunca vivesse, não sentiria falta da chuva batendo no rosto, do primeiro beijo ou do cheiro de terra molhada. Me diga agora, com sinceridade: vale a pena? Eu acho que não. Olhando friamente, não vale. O risco é muito alto, e a balança pesa mais pras desvantagens que pros benefícios.
Por isso que eu sigo com vontade de acreditar que vou fazer diferença em alguma coisa. É o único modo de chegar no leito de morte, olhar pra trás e dizer "valeu a pena". E é essa curiosidade, de saber o que vem por aí, que me impede de me conformar com a mesmice de um trabalho repetitivo, a mesma comida todo dia, ir pra casa e assistir novela. Quero descobrir o que vai fazer tudo isso valer a pena, porque a vida é uma merda.
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